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A Polémica da Ponte Nossa Senhora da Ajuda, Alentejo, Portugal - A INVASÃO ESPANHOLA

26/11/2002 - Diário de Notícias - ELSA COSTA E SILVA

Contra a «invasão» espanhola

Portugal não está a acautelar os seus interesses económicos na relação com Espanha. Interesses que são também da soberania nacional e que levam Braga da Cruz, ex-ministro da Economia, a questionar se Portugal continuará a ser um país independente. E se não se tornará uma província espanhola. Falta de «esclarecida vontade política» e de «negociação permanente» são as falhas apontadas que respondem pelo risco de o País vir a ser confrontado com «decisões unilaterais» por parte de Espanha.

A ligação TVG Lisboa-Madrid esteve notoriamente ausente do discurso de Braga da Cruz _ durante os Encontros do Porto'02, promovido pela Associação Comercial do Porto, sob o tema de «Europa e globalização: um conceito estratégico para Portugal» _ mas o ex-ministro não deixou de assinalar que «dada a diferença de escala das duas economias, o risco da decisão espanhola ser tomada sem atender ao interesse português tem implicações cada vez mais graves e de difícil correcção». A alusão à ligação alta velocidade via Badajoz ou Cáceres foi evidente, até porque se seguiu de imediato o exemplo «positivo» do trabalho à volta da ligação ferroviária Porto-Vigo.

E não só de comboio viaja a preocupação do ex-ministro _ que manifesta alguma sintonia de pensamento com o manifesto dos empresários portugueses apresentado ao Presidente da República. Há também o recente interesse demonstrado pela Iberia na transportadora aérea nacional e, sobretudo, o facto de não se ter privado de «anunciar a disponibilidade em circunscrever a actividade da TAP aos mercados que julga não terem ainda suficiente competitividade a partir de Madrid». Desta «invasão» espanhola «inaceitável» resulta um alerta aos agentes do Porto, para quem o novo aeroporto da Ota retira competências a Pedras Rubras.

A desigualdade das economias, que serviu de base para a intervenção de Braga da Cruz, foi explorada antes por um outro ex-ministro, desta vez das Finanças. Braga de Macedo, para quem Portugal era «um óasis», afirmou que, contudo, falharam as reformas estruturais. Espanha cresceu porque as fez. Portugal ficou para trás, até porque não reagiu tão bem aos choques externos.

Razões que explicam o porquê do PIB por trabalhador espanhol ser de dois terços em relação ao norte-americano enquanto o português é menos de metade. Um «panorama desolador» que piora quando comparamos o índice de produtividade industrial e vemos que o PIB de um operário fabril espanhol representa 57 por cento do de um norte-americano, enquanto o de um português é apenas de 29%.

O encontro foi uma nova oportunidade para o eurodeputado social-democrata, Pacheco Pereira, se mostrar muito céptico relativamente ao caminho da Europa e do papel de Portugal. «Quanto mais tempo passo no Parlamento Europeu, menos europtimista fico.» O constante adiamento dos problemas da União e a «hipocrisia» dos Estados membros face ao alargamento são sinais, afirma, da crise que se avizinha.