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Filipe IV?
Miguel Luís da Fonseca, Professor, Villa dos Moinhos, Caniço - Madeira
11:44 11 Novembro 2002 - Expresso
Está aberto o debate: a Espanha quer ou não dominar Portugal? Desde logo, é evidente que a independência de Portugal não se defende com lamechas, mas com uma estratégia, que é coisa que não existe. É evidente que a Espanha tem uma estratégia de afirmação no mundo.
E, sem acreditar em bruxas, deve colocar-se a hipótese de a Espanha ter uma estratégia de domínio de Portugal através da economia, o que não conseguiu através das armas. Para não falar da língua, com o canal Panda a debitar em castelhano quase todo o santo dia, com legendas que as crianças não lêem, mas vão apreendendo as estruturas do espanhol. Já oiço o meu filho mais novo dizer ao mais velho: «Tu eras um leão, e eu era um lobo». Lá está o «tu eres», tipicamente castelhano. Em português clássico, dir-se-ia «tu fazes de leão e eu faço de lobo». Duvido que em Espanha haja «dibujos animados» falados em português com legendas em castelhano. Entretanto, os «patrioteiros» insurgem-se contra o sotaque brasileiro, e parece que preferem viajar pelo mundo e ter guias a falar em espanhol com os turistas portugueses do que com sotaque do Brasil. Se calhar, também preferem o espanhol ao sotaque alentejano ou açoriano ou madeirense. Ai as «tias», «pecebes»?
Entretanto, se se fala de uma estratégia para penetrar em Espanha, somos chauvinistas, quando é certo que a Espanha não se abre facilmente às empresas portuguesas. No Funchal, um banco dominado pelos espanhóis já se dá ao luxo de emitir notas de serviço para o pessoal em castelhano. Aí, os falsos autonomistas calam-se. Até já houve quem escrevesse que lamentava Aljubarrota. Como se as autonomias em Espanha não viessem, pelo contrário, justificar Aljubarrota. A verdade é que não vale a pena nem a lamúria nem a inocência, mas uma estratégia que passa não só pela economia mas também pela cultura e pela política. Na economia, pela conquista do mercado espanhol, o que implica uma aliança entre o sector público e o privado, como, aliás, estava a ser gizada pelo Governo de António Guterres, o tal que nos levou para o euro, possibilitou a CPLP e a independência de Timor, lembram-se? Eu cá continuo guterrista. Não está na moda? Paciência! Na cultura, pela afirmação da língua, o que pressupõe aliança com os países de língua portuguesa. Na política, pelo retorno ao eixo atlântico. A independência de Portugal só foi possível com alianças com a potência marítima, a Grã-Bretanha, contra a potência continental, Castela. Na guerra dos Cem Anos, Portugal optou pela potência marítima.
Por outro lado, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa deve ser entendida como uma forma complementar da opção europeia do país e não como uma alternativa a essa opção. Com o alargamento a Leste, o país ficará ainda mais periférico no contexto europeu. Isso só será anulado através da criação de um nova estratégia que coloque Portugal no centro de um eixo atlântico com ligações ao Brasil, a Angola e aos Estados Unidos. Mas é evidente que é sobretudo com os países de língua portuguesa que essa aliança se fará.
Uma tal visão não é compatível com uma atitude isolacionista na Península, mas com alianças com a Galiza e a Catalunha, sendo certo que estas regiões querem sempre mais autonomia em relação ao centro castelhano e perigam a unidade do estado espanhol e Portugal, segundo alguns, periga a sua independência. Estamos, portanto, num quadro que vai desde a desagregação de Espanha como unidade política e a existência de uma unidade política que abranja toda a península. E o mais interessante é que, na minha opinião, prevalecerá a que chegar depois. Ou seja, se as autonomias espanholas evoluírem para estados independentes, na fase seguinte assistiremos a uma federação ibérica. Se os espanhóis dominarem «o que falta», com o herdeiro da coroa espanhola em Filipe IV, a resistência portuguesa aliada aos desejos de independência das outras nações ibéricas levará à desagregação da Península. Finalmente, em qualquer caso, não deixará de haver laços políticos entre todos na Península, uma vez respeitados os direitos históricos e culturais das várias nações. Neste quadro se exercem também as autonomias insulares portuguesas, que devem ser emancipalistas, nunca separatistas. É bom se precaver contra os que ainda não perceberam que a independência se faz na inclusão patriótica e não na exclusão separatista.