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As Ilhas no Rio Minho

"Até Agora Nunca Se Lembraram da Ilha"

Por ANA PEIXOTO FERNANDES E JOANA LOUREIRO - O Público - Sábado, 16 de Novembro de 2002

"Sempre espanhol"

O alcalde de Salvaterra do Minho, Arturo Grandal Vaqueiro, manteve ontem, em declarações ao PÚBLICO, a sua firme convicção de que a "Ilha Grande" - ou "La Española", como diz ser conhecida por todos do lado de lá da fronteira - "sempre se considerou território espanhol", não compreendendo as pretensões da Câmara Municipal de Monção de considerá-la domínio português. "Até agora nunca se lembraram da ilha, enquanto nós toda a vida tivemos naquele território várias plantações, como por exemplo, de tabaco e de vinho", defendeu. Além do mais, alega existirem documentos com mais de 150 anos que comprovam pertencer a ilha a Salvaterra de Minho. "Se fizerem perguntas em Monção, tenho a certeza que ninguém saberá nada do assunto", acrescenta, "ao passo que os costumes espanhóis são claros quanto à propriedade da ilha".

"Unhas e Dentes"

As comparações com "Perejil" - uma ilha mediterrânica cuja propriedade provocou um incidente diplomático algo peculiar entre Espanha e Marrocos - são alvo da ironia de Arturo Grandal Vaqueiro, afirmando que "não sabe se está perante um novo "Perejil" (em português, salsa) ou se será antes um loureiro". Uma forma de desvalorizar as discordâncias entre os dois municípios, que "de todos os que percorrem o rio Minho, foram aqueles que sempre mantiveram as melhores relações, de grande amizade e respeito". Daí que as declarações proferidas ao jornal "Faro de Vigo" - em que afirmava ir "defender com unhas e dentes a titularidade espanhola da Ilha Grande" -, terão que ser compreendidas como um sinal de quem "pretende defender o território com todo o coração, alma, mas também dentro de um espírito democrático, convicto de que a razão está do seu lado", explica. Mas sustenta que a última palavra caberá à comissão de limites luso-espanhola, depois desta avaliar toda a documentação fornecida por ambos os municípios.

"Não podemos perder..."

Os cerca de 110 mil metros quadrados da ilha seriam utilizados pelo concelho de Salvaterra do Minho para a criação de um parque natural, com fauna e flora autóctone. O município galego teria já deliberado a aquisição da ilha, por 300 mil euros, a um cidadão espanhol que a teria registado em Ponteares (Galiza). O facto de este projecto poder ser inviabilizado não causa grande satisfação ao alcalde de Salvaterra: "não podemos perder esta área e iremos lutar para que seja considerada território espanhol", concluio.

"Sei que não vai haver guerras".

"Quem tem razão não sei, mas sei que não vai haver guerras". A expressão é de José Emílio Moreira, o presidente da Câmara de Monção, ontem, ao PÚBLICO, também ele empenhado agora em desdramatizar a questão. Aliás, o edil admite já que não sabe se foi "induzido em erro ou não pelo documento mais recente que temos de cartografia [ver texto nestas páginas], mas falta-me saber se entre essa data (a que consta na acta do Tratado de Limites do final do século XIX) e 1995 em que o Governo aprovou o PDM se houve alguma rectificação ou mudança".

Documento "confirma território de Portugal"

Para isso, José Emílio Moreira irá, ao longo da próxima semana, tentar apurar, junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Comissão de Limites, se terá havido alguma "rectificação de fronteiras", no último século. Finalmente, acrescentou que o comando do porto de Caminha tem na sua posse um documento da Comissão de Coordenação da Região Norte (CCRN) que, "confirma que aquele território pertence a Portugal", e que estará a ser enviado a diversas entidades públicas portuguesas como comprovativo da soberania de Portugal sobre a polémica ilha.

MNE e CIL indisponiveis

O PÚBLICO tentou ao longo de todo o dia de ontem contactar o Ministério dos Negócios Estrangeiros e a Comissão Internacional de Limites Luso-Espanhola, sem que tenha havido disponibilidade dos mesmos para esclarecer a questão em tempo útil.

(Sub-títulos por Rui da Silva)