A Velha Ponte da Ajuda
Tenho seguido
com atenção o que se tem escrito sobre a velha Ponte da Ajuda, em que
trabalhos meus várias vezes são citados. Gostaria, pois, de dizer algo
em relação aos problemas históricos colocados, nomeadamente em torno
da visita de D. João a Olivença em ll de Novembro de 1716.
Destruída em 1709, estava a Ponte em ruínas em 1716... como hoje. Só
podemos especular sobre como o Rei terá transposto o Guadiana. Há
várias hipóteses. O Rei poderá ter passado o Rio no lugar a bordo de
uma luxuosa barca, como sugeriu o vosso colaborador João Aranha. O Rei
João V poderá também ter mandado proceder a uma reparação provisória
com tábuas, mesmo porque a Ponte estaria menos destruída do que em
1801 ou hoje em dia. O monarca em questão ficou célebre na História de
Portugal não só por grandiosas edificações em pedra (basta lembrar o
Convento de Mafra), como (e aqui é importante!) por construções
PROVISÓRIAS que mandava erguer quando considerava necessário.
O luxo que tais construções ostentavam, ainda que estivessem de pé por
pouco tempo, é recordado em diversos documentos. Assim, ele poderá ter
feito algo na Ajuda deste género. Poderá estar mesmo aqui a explicação
para uma tradição oliventina: a de que a Ponte da Ajuda chegara a ser
reconstruída com tábuas. Talvez se tratasse de uma reparação
provisória efectuada para a visita real, que tenha estado de pé uma
meia dúzia de anos! A tradição de pontes de madeira na Estacada e em
Juromenha baseia-se somente na tradição popular, nomeadamente entre
gentes dos “montes” à volta.
Nenhum documento o confirma. No caso da Estacada, dada a proximidade
das margens, pareça ser uma hipótese provável, ao contrário de
Juromenha, onde a largura das mesmas margens parece tornar tal
construção inviável tecnicamente. Mas, na verdade, as tradições já se
têm revelado surpreendentemente verdadeiras. Quem sabe não se
encontrarão ainda documentos surpreendentes? A Ponte foi vendo o seu
estado degradar-se ao longo dos séculos.
Ignora-se se terá sido ou não mais deteriorada aquando da ocupação em
1801. De qualquer forma, ela era bem um símbolo, nomeadamente para os
oliventinos que resistam a uma persistente espanholização que se
desenvolveu ao longo do Século XIX, e que levou muitos a fugir para
Elvas e outras povoações... mesmo porque Olivença, nessa época, se viu
mergulhada num triste marasmo. A Terra das Oliveiras, comparável a
Elvas e a Badajoz em 1801, foi ficando para trás... apesar do título
honorífico de Cidade que recebeu em 1852. O início do Século XX não
alterou esta situação e todos os pedidos de Reconstrução da Ponte se
detinham no problema da Soberania. E as pedras lá iam caindo... uma a
uma... Sabemos que o franquismo reprimiu de forma mais radical o muito
que de portuguesismo sobrevivia em Olivença. Curioso é que, na época,
Madrid procurasse esconder aos habitantes que se vivia melhor em
Portugal do que em Espanha. Recorde-se também a atitude actual do
Estado espanhol, em relação a Gibraltar, onde se vive melhor que em
Espanha: considera-se que tal “insignificância”, bem como a rejeição
da união à Andaluzia por 99% da população do Rochedo, não podem por em
causa os direitos de soberania de Madrid, pois tal é “sagrado” (quando
muito, propõe-se aos gibraltinos um estatuto especial e um período de
transição). Na verdade, há uma maneira espanhola muito “original” de
discutir este tipo de problemas!
A Ponte acompanha pois a dolorosa História de Olivença, ainda a
escrever-se. É necessário, pelo menos para muitos portugueses, que os
oliventinos reaprendam a sua História (só a Língua é bom, mas não
chega; dir-se-ia uma alma sem corpo...), e que todos os problemas que
rodeiam a Reconstrução da Ponte sejam colocados claramente, o que não
se tem verificado. Basta recordar que, entre Março e Julho deste ano
de 2003, os jornais portugueses (Expresso, Público, Diário de
Notícias, etc.) se referiram livremente às peripécias diplomáticas que
rodearam o problema da Ponte, e que envolveram o Governo, o Ministério
dos Negócios Estrangeiros, protestos junto do Governo de Madrid. Tais
notícias foram enviadas para jornais espanhóis... e NADA foi
publicado... salvo seis linhas (!!!) no “El Periodico Extremadura”!
Como é possível falar seriamente com oliventinos e espanhóis da Ponte
e das divergências sobre soberania nestas condições? De qualquer
forma, as obras pararam. Será talvez tempo de fazer uma espécie de
balanço. Verificar “in loco” as técnicas utilizadas, e, caso se
verifique não terem sido as mais correctas, procurar responsabilidades
junto de quem autorizou as obras. Esperamos que o IPPAR proceda a este
trabalho.
E por aqui me fico, consciente que muito mais haveria a dizer.
Carlos Eduardo da Cruz Luna - Estremoz