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07/Fev/2003
Barroso contra «papão espanhol»
EVA CABRAL FRANCISCO FERREIRA DA SILVA
O primeiro-ministro afirmou na reunião, à porta fechada, com empresários, gestores, banqueiros, presidentes de entidades públicas e ministros, que o «papão espanhol» não pode servir de desculpa para se ficar de braços cruzados e não fazer nada em relação às desvantagens competitivas em relação a Espanha. Incentivou, uma vez mais, os empresários a dedicarem maior atenção àquele mercado, numa reunião que, durante mais de quatro horas, juntou em S. Bento, cerca de três dezenas de individualidades.
O presidente da Agência Portuguesa para o Investimento (API) fez uma análise comparativa da competitividade portuguesa e espanhola em diversas áreas, bem como dos níveis de investimento directo entre os dois países, cujo saldo, nos últimos dois anos, até tem sido favorável a Portugal. Miguel Cadilhe referiu a desproporção de meios utilizados pelos dois países, sublinhando que, para valores absolutos não muito diferentes, os espanhóis aplicaram apenas 1% do seu investimento directo no estrangeiro em Portugal, enquanto Portugal canalizou cerca de 30% do seu investimento no estrangeiro para o país vizinho. Actualmente, existem 1400 empresas espanholas a operar no mercado português, e apenas 150 portuguesas no país vizinho.
Mas, a questão de fundo, que tem motivado as intervenções de incentivo ao investimento português em Espanha, sobretudo, o aumento das exportações, é o défice da balança comercial entre os dois países. O nosso défice comercial com Espanha é superior ao volume das exportações, o que significa que estamos a comprar aos espanhóis mais do dobro daquilo que lhes vendemos.
Também no turismo, o cenário não é famoso. O presidente do ICEP sublinhou a necessidade de melhorar a qualidade do turismo espanhol em Portugal. Pedro Líbano Monteiro afirmou que todos os anos cerca de seis milhões de espanhóis passam a fronteira para visitar o nosso país, enquanto apenas 1,5 milhões de portugueses visitam Espanha, apesar de, em valor absoluto, os gastos sejam semelhantes, cerca de mil milhões de euros por ano.
Pedro Líbano Monteiro invocou ainda a sua experiência passada no BCP para dizer que os bancos portugueses deviam aumentar a sua presença em Espanha. Uma referência que o presidente do Totta (Grupo Santander), António Horta Osório, aproveitou para dizer que o seu banco estava pronto a apoiar as empresas portuguesas interessadas no mercado espanhol. Jardim Gonçalves, presidente do BCP, referiu que o seu banco não podia começar do zero em Espanha e apelou à necessidade de dimensão e de conservar os centros de decisão em Portugal. Tese em que foi secundado por Bayão Horta, da Cimpor, e Vasco de Mello, da Brisa. Numa análise das privatizações em Espanha, Vasco de Mello disse que só foram vendidas a estrangeiros as empresas que não tinham interessados espanhóis.
Outros empresários consideram que mesmo com o handicap da dimensão se deve avançar para Espanha. Exigem o aperfeiçoamento das relações transfronteiriças e um acesso mais facilitado ao crédito. Bem como um combate firme do governo português contra as «barreiras» que Espanha, designadamente as autonomias, colocam aos negócios portugueses.
No final, Durão Barroso voltou a referir-se à necessidade de combater a ideia do «papão espanhol», dizendo que, por razões geográficas, estamos condenados a trabalhar com Espanha. O que devemos é trabalhar mais, aproveitando as oportunidades que se oferecem num mercado maior e melhor que o nosso.