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01/12/2001 - Diário de Notícias

Já Quase só Restam as Recordações

ROBERTO DORES em Olivença

Os anos não perdoam. De geração em geração, o sentimento dos oliventinos por Portugal vai-se diluindo. Por enquanto, ainda é fácil encontrar na praça central quem guarde recordações do nosso país e fale correctamente a língua de Camões. Mas são aqueles que já precisam de se apoiar numa bengala para caminhar. Os mais novos pouco sabem sobre o que se passa do lado de cá. Para eles, Portugal representa o mesmo, ou ainda menos, do que para os vizinhos de Badajoz. Como se Olivença fosse espanhola desde sempre. Há mesmo uma jovem que conhece apenas... Figo, o futebolista português que joga no Real Madrid.

Os dias decorrem calmos no centro de Olivença. É uma localidade claramente a rejuvenescer, com um desenvolvimento que se deixa anunciar. Quem conhece bem a vida da raia, garante que o futuro de Olivença só é mais promissor do que alguns concelhos portugueses de idêntica dimensão, como Alandroal ou Mourão, porque está em Espanha.

E a afirmação de Diego Gallego - que fala um surpreendente português e sem qualquer sotaque - não tem por base qualquer patriotismo exacerbado. Este homem, de 74 anos, é descendente de portugueses, pese embora o apelido, e toda a vida esteve ligado a Portugal, por via profissional.

Diego justifica o português fluído com o facto do pai exigir que em casa se falasse a nossa língua, o que acabou por ser um bom instrumento na sua carreira. Ainda hoje, este homem comunica com a mulher em português, mas assume que os filhos, embora entendam todas as conversas, só pronunciam o castelhano. Já os netos não entendem uma palavra. "Isto mudou do dia para a noite nos últimos 50 anos, porque os espanhóis de hoje têm muito orgulho no país. Às vezes, até somos arrogantes demais e devíamos ser mais modestos."

E quando a sua geração desaparecer? "Vamos levar o português connosco." Mas alguma vez pensou em ser português? "Não, claro que não. Espanha é outro país. Sinto que somos como irmãos, mas não passa disso", responde Diego Gallego em declarações ao DN.

E a prova cabal que a língua materna oliventina se perde pelas gerações acaba de chegar. O varredor de serviço, na casa dos 50 anos, entra na conversa com um sotaque a fazer lembrar o "barranquenho". "O que anda por aqui a hacer um periodista português? Pasa algo?". O que pensa ele de Portugal? "Es un país muy bonito. Gostamos mucho e tratam-nos bem". Mas o patriotismo espanhol fala bem mais alto, quando se pergunta se Portugal representa mais do que acabou de dizer. ""No. Sou espanhol e quiero mucho a este país. Nasci espanhol e es assi que quero continuar."

Olhar curioso sobre esta velha polémica questão atem Pablo Silva, 34 anos. Para este professor de História, que só fala castelhano e não entende o português, chegou a hora de Portugal e Espanha "se entenderem para acabarem, de vez, com esta controvérsia. É melhor que os governos esclareçam as populações sobre o que querem fazer e que quem escreve os livros tenha a coragem de contar a história, sem preconceitos." Este docente, de ascendência portuguesa, recorda que Campo Maior também não é um assunto pacífico, "No entanto, nenhum espanhol vai lá aborrecer ninguém, ao contrário do que têm feito aqui alguns portugueses que não se cansam de nos picar. E isso ofende-nos, sobretudo numa altura em que devíamos unir-nos para fazer face aos desafios europeus", conclui.

Completamente alheia à polémica sobre a quem pertence Olivença, está Maria Rodriguez Valério, 22 anos. Nem sequer sabe que um dia a vila pertenceu a Portugal poque, diz, não percebe "nada de política". Nem sabe, igualmente, se seu apelido terá ascendência lusa. De Portugal pouco ou nada conhece, à excepção de Luís Figo. Com uma particularidade: só passou a fronteira por uma vez, dias depois da inauguração da nova ponte da Ajuda.

"Foi para experimentar. Fomos comer a Elvas e regressámos por Badajoz", revela, congratulado-se com a nova passagem sobre o rio Guadiana, porque trabalha numa pequena charcutaria e ultimamente não têm faltado clientes portugueses para comprarem presuntos e enchidos. Só que têm de falar castelhano para que Maria Valério os entenda.